Acho que ninguém responsável por selecionar os candidatos às vagas de uma empresa deveria ficar muito tempo acomodado em um emprego estável. Do modo que eu sonho, em um dia de verão, desses em que faz sol de dia e chove à tarde, eles receberiam uma ligação lá pela hora do almoço, e então seguiriam para o setor de recursos humanos, onde uma moça de aparência tímida, de óculos e cabelo sem corte, lhes diria sem enrubescer que eles estão sendo dispensados por não estarem de acordo com o perfil 2012 da empresa.
A partir daí, teria início uma encenação coletiva ao estilo “O Show de Truman”, e seus maridos ou esposas perderiam o emprego; seus filhos, bons alunos de universidades caras, não conseguiriam o primeiro estágio; um ou outro ente querido faleceria e muitas pessoas prosperariam, só para tirar da cabeça desses recrutadores a ideia meio triste, mas muito consoladora de que se trata de um mau momento na economia que dispensa explicação aos conhecidos, que perguntariam com demasiada frequência o que eles andam fazendo da vida.
Enquanto isso, eles não conseguiriam empregos em sua área de atuação; as contas chegariam; o inverno rigoroso exigiria roupas novas e mais quentes; aparelhos domésticos quebrariam; o preço das coisas subiria; as esposas ou maridos entrariam em depressão e os jornais e as revistas trariam matérias sobre os gastos exorbitantes dos brasileiros no exterior.
Passado um ano, uma vaga dos sonhos apareceria e, em uma das raras vezes em todo esse tempo, eles seriam chamados para uma entrevista. Nela, uma pessoa super confiante lhes olharia sem sorrir, percorreria seus currículos como quem não encontra o que procura e lhes perguntaria coisas como o motivo da saída da grande empresa em que trabalhavam, se acham que dão conta do recado depois de tanto tempo fora do mercado, o porquê desse tempo e, finalmente, o que eles realmente querem para a carreira já que passaram um bom período fazendo salgadinhos de festa sob encomenda.
Se tudo desse certo e ninguém lançasse mão de ironias, grosserias, choradeiras e palavras honestas e merecidas em geral, após uns dois meses, quando eles já tivessem como certa mais essa rejeição, receberiam uma ligação da moça de óculos que lhes diria que tudo não passara de uma pegadinha, e que eles deveriam encarar aquilo como um período sabático, mas que a empresa os espera na segunda-feira com um grupo de candidatos à vaga de estágio.
E só para afastar a ideia desta vez meio divertida, mas muito consoladora de que não fosse o ambiente controlado nada disso teria acontecido, domingo, no Fantástico, a Renata Ceribelli falaria de uma nova série que consistiria nesse um ano na vida dessas pessoas. Logo em seguida, antes de uma matéria repleta de entrevistas com pessoas cabisbaixas, diria: “Essa é a história de milhares de brasileiros”. E terminaria assim.