Archive for Maio 2008
Ensaio sobre o que ouvi de Anywhre I Lay my Head, da Scarlett Johansson
Faz um tempo – para dar uma idéia desse tempo, eu ainda assistia ao Cineview do Telecine, pois ele ainda era apresentado pela Renata Boldrini – o José Wilker comentou que diretores costumam levar as pessoas ao cinema, mas não os atores. De repente, alguns nomes começaram a surgir na minha cabeça. Eram nomes como, por exemplo, Johnny Depp, Tom Hanks e Reese Witherspoon, que, de alguma forma, me fizeram lembrar da palavra “rentáveis”. Pode parecer que não, mas tudo aconteceu rapidamente, de modo que, em questão de segundos, eu dizia para a televisão: “CAPAZ!”
Depois passou a vontade de contrariar alguém que simplesmente não iria retrucar e eu comecei a pensar na enunciação e não no enunciado em si. Diretores costumam levar as pessoas ao cinema devido principalmente a sua visão de mundo, enquanto os atores costumam fazê-lo por serem sinônimo de uma atuação tão fantástica que já valerá o ingresso, como é o caso de Johnny Depp interpretando o Capitão Jack Sparrow na trilogia Piratas do Caribe.
Depp, aliás, que sem dúvida é um grande ator que, se não faz valer o ingresso, ao menos alivia o sofrimento de assistir a filmes como A Janela Secreta, é um bom exemplo para mostrar que atores também deveriam levar as pessoas por sua visão de mundo. Para não extender muito o assunto que, “ou muito me engano” ou já foi extendido, basta dizer que não é à toa que, nas palavras do próprio Tim Burton, a relação deles só não seja AINDA sexual. Tenho um palpite de que sentimos a identificação de um ator com uma visão de mundo e é por isso que ver Audrey Tautou em O Código daVinci é tão cruel para alguns.![]()
Outra atriz que sempre me levou ao cinema por representar uma visão de mundo e que, também como Johnny Depp, parece ter descoberto uma forte ligação com um diretor, no caso, Woody Allen, é a Scarlett Johansson. De certa forma, é isso, isto é, a escolha de filmes como Ghost World e Encontros e Desencontros, que fez com que eu achasse normal como um próximo passo e não irritante ela decidir gravar um CD. Para mim, foi o mesmo caso de Juliette Lewis com sua banda Juliette and The Licks: algo lógico e natural. Mas, já que a comparação foi feita, a realização pessoal de Scarlett é tão boa quanto a de Juliette?
Achei melhor. Algo contrário a todas as críticas que Scarlett tem recebido, principalmente em relação a sua voz, que não é ruim, mas apagada e apática enquanto canta versos de Tom Waits com uma banda multiinstrumentista. É o que eu acho também, mas ainda assim, de modo geral, eu gostei, pois as letras de Tom Waits são realmente muito boas e a banda que acompanha Scarlett também.
É como se minha identificação com suas músicas se desse da mesma maneira que minha identificação com seus filmes porque a verdade é que a atuação de Scarlett Johansson, assim como sua voz, raramente me impressionou, mas suas músicas, também como seus filmes, podem ser incríveis mesmo assim.
Observações finais: Iria contra a identidade do CD, mas é REALMENTE uma pena Summertime (cliquem, cliquem), do CD Unexpected Dreams: Songs From the Stars, não aparecer como faixa bônus…
Notas sobre Laura Marling
“Quite a nice voice, plummy and deep, as if her voice was pure, as if she’d never had a filling.The complexion of a white peach. She’s worth it, this one. She’s the one I’ve waited for.” excerto de Notas sobre um Escândalo.
E é só isso que direi. Para que falar mais quando o Last Knit o fez tão bem aqui?
Música do dia – Mother of Pearl, da Nellie McKay
Quem gostar pode cantar junto!
O que vocês fazem às 21h das quartas e quintas-feiras?
Confesso que eu não resisto e vejo o nascimento do novo ídolo pop americano. Confesso também que, desde que descobri que estamos sempre uma semana atrasados, sempre entro na internet para ver os resultados e, por conta disso, sei que a final ficou entre os Davids.
O David Archuleta me impressionou com Imagine, mas, depois de Billie Jean e Always Be My Baby, a barreira da falta de carisma de David Cook foi ultrapassada e eu torço para que ele ganhe. Outra grande apresentação foi Music of the Night do Andrew Lloyd Webber, noite na qual também Carly Smithson fez uma de suas melhores apresentações, mas que, infelizmente, marcou sua saída. Que David Cook tenha mais sorte!
Cover de Billie Jean, do Michael Jackson
Cover de Always Be My Baby, da Mariah Carey
Foi uma boa temporada. Carly Smithson e Michael Johns deixarão saudades, assim como Brooke White e Jason Castro “em início de carreira”. Esses dois partiram meu coração irremediavelmente.
O post que é sobre o rock nacional e uma forma de agradecimento.
Não é que o rock nacional só tenha chegado ao seu grande momento agora, mas basta entrar no Myspace de uma banda ou artista nacional deste novo cenário, ver as outras bandas que eles têm como amigos e a porrada de fãs deles para ter uma idéia vaga disso tudo. Para entender mesmo, eu coloquei aqui minhas bandas e meus artistas favoritos:
Conhece Celtic Rock? Como o nome sugere, é a mistura de rock com a música Celta, tradicional da Irlanda. Se tivéssemos que fazer isso no Brasil, misturaríamos rock com o quê? Samba? Pouco ousado. Seria só buscar o verdadeiro samba brasileiro e dizer a ele que se trata disso para não causar tanto asco a um fã de rock alternativo e tornar a idéia completamente plausível. Então o que mais poderia ser? Música caipira, é claro.
Entre as influências citadas por Charme Chulo estão The Smiths, Joy Division, Almir Sater, Tião Carrero e Pardinho… Enfim! Bem inusitado e (eu acho) bem bacana.
Eles tocam hoje no Strettos bar, em Londrina.
A primeira coisa que vi do Ecos Falsos foi um vídeo no qual eles entrevistavam a banda Autoramas. Um dos entrevistados dizia que não aguentava mais ouvir o outro cantar a música Razões e Emoções do NXZero, que achava a música até bacana, mas que simplesmente não aguentava mais. Ao ouvir que a música é bacana, Ecos Falsos perguntaram: ‘Mas o que vocês acham que eles querem dizer com “Entre razões e emoções a saída é fazer valer a pena?”‘.
Rock de letras espirituosas em som não-ignorável.
Fenômeno da internet sobre o qual todo mundo sabe. Garota de 15 anos fã de Bob Dylan, Johnny Cash e Belle and Sebastian e por aí vai, algumas matérias falaram até em que bairro de São Paulo ela mora…
Acho tudo isso muito irritante. Não entendo por que uma garota de 15 anos ser fã de Bob Dylan e Johnny Cash é motivo para tanto estardalhaço nos dias de hoje. Ela costuma responder que descobriu Elvis, por exemplo, mexendo nos vinis da avó. Os jornalistas parecem adorar essa história. Ok que todo mundo conhece no sentido de já ouviu falar de Bob Dylan, Johnny Cash e Elvis! Mas, Mallu, como foi que você conheceu a música deles? Não seria legal se ela respondesse “LastFm, ué!”?
Mas não deixemos que sua fama ofusque uma música que é bem bacaninha, de quem não esconde que é fã de Belle and Sebastian e de quem tem uma paixonite pelo jeitinho bizarro de cantar do anti-folk.
Garota incrível que infelizmente ainda não é fenômeno da internet. Suas músicas são mais melancólicas que as de Mallu Magalhães e possuem letras mais sofisticadas. Lembra um pouco Emmy The Great, cantora e compositora londrina de anti-folk que já abriu shows para uma porção de gente, incluindo Tilly and the Wall e Kimya Dawson. So Much Longer é lindíssima.
Banda carioca de rock folk psicodélico experimental(?!?!?). Originalidade característica de bandas independentes e uma complexidade sonora que vai além do usual dessa cena.
Outra banda influenciada pela própria música brasileira e, desta vez, até pela bossa nova. Contudo, a mistura foi boa e, embora identificável, sua presença entra em harmonia com o rock de forma mais equilibrada que a música caipira no som do Charme Chulo, sem que isso seja demérito para uma banda ou para outra. Se Charme Chulo é divertida com o contraste entre ritmos (rock x música caipira), Vanguart não fica muito atrás quando o cria entre letras e melodia, vide Cachaça!
Se você ouviu a todas as bandas e artistas e gostou, mas acha que se trata, sim, de uma categoria à parte, como se elas pudessem concorrer ao prêmio de melhor filme estrangeiro, mas não ao de melhor filme porque por melhores que sejam elas são muito diferentes das bandas gringas, que, bem ou mal, são a nossa referência, então Violins é a melhor banda para encerrar o post.
Banda “gringa” nacional, que canta em português mesmo, para acabar com o mito de que rock não pode ser feito na nossa língua. Manobrista de Homens é altamente recomendada para elucidar o meu ponto de vista.

Mas, vai dizer que Amélie Poulain não é fantástico? Tem para todos os gostos!
P.S.: Hoje tem show do Charme Chulo no Strettos Bar em Londrina! Será que você gostou?
…
Querida Chiara,
Pude perceber que mesmo na correria dos seus dias, que incluem muitos trabalhos de arquitetura e, quem sabe, problemas com inseticidas na madrugada, você encontra tempo para visitar este blog pouco atualizado e de quase nenhum interesse público quase que diariamente.
O próximo post tem dica especial para você! Espero que goste…
Enquanto o post sobre Control não vem…
Estava conversando com minha amiga Dami Cunha outro dia sobre seu vício em The Big Bang Theory e, no meio da conversa, eu disse que usava sempre uma frase dita por Penny a Sheldon que é mais ou menos assim:
“Você acha que está explicando, mas não está!”
Então, é isso! Alguns filmes estão repletos de frases incríveis, mas algumas se mostram mais úteis que outras no dia-a-dia, talvez por tratarem de assuntos mais mundanos. Enfim, qual frase de filme você usa sempre?
A minha (na verdade, é um período) é de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen:
That’s OK. We can walk to the curb from here.”

TODA VEZ QUE ALGUÉM PARA LONGE DA GUIA!
Sobre Alice, de Calvin Trillin
Eu nunca ouvira falar de Calvin Trillin e sua mulher, Alice, até ler, na época do lançamento do livro, uma coluna de Contardo Calligaris chamada “O segredo da vida de um casal” que falava sobre a história de amor deles. Contardo é um colunista e, portanto, pode se dar ao luxo de falar principalmente sobre o que lhe é caro. É difícil ler seus textos que falam de livros ou filmes e não sentir uma vontade imensa de correr atrás daquilo que você lamentavelmente ainda não leu ou viu, mas a vontade de ler Sobre Alice foi especialmente incontrolável, pois, ao menos dessa vez, o que mais me fascinou não foi a visão que Calligaris tinha dele, mas o próprio tema desencadeador da reflexão. Senti isso ao ler o seguinte trecho de Trillin citado por Calligaris:
“Minha mulher, Alice, tem a estranha mania de limitar nossa família a três refeições por dia.”
O excerto, como alerta o colunista, pertence ao livro Alice let’s eat, de 1978, e é bom avisar que Sobre Alice não segue à risca essa mesma linha humorística. Não, o texto escrito como despedida e homenagem a Alice, que morreu em 2001, é bem mais que humor. O livro faz rir, gargalhar até, mas o diferencial de Sobre Alice é entregue logo na introdução, na qual Calvin Trillin fala que seus leitores não conheciam Alice, mas o modo como ele, Trillin, a via. É esse o foco do livro e o que o torna tão especial.
Ao longo de Sobre Alice fica muito claro que, embora Trillin a tenha utilizado para fazer humor, ele jamais viu Alice e seu jeito que, de tão sensato (ela dizia que o marido a transformara numa “nutricionista calçando as sandálias da sensatez”), lhe parecia peculiar, como uma piada. Via como algo que o fascinava e intrigava.
Falando sobre a esposa, o autor diz que intelectual é alguém que busca entender o sentido de tudo e o próprio Trillin não parece fugir dessa definição. Se ela sempre buscou analisar e entender o sentido de tudo, Calvin Trillin sempre buscou entender Alice que, conquanto extraordinária, não deixava de ser humana e amada por alguém que, como o autor faz questão de pontuar, não era tão extraordinário assim, de modo que Sobre Alice possui reflexões brilhantes sobre maneiras de pensar ou de agir que, com certeza, não são exclusivas de Alice ou de Calvin.
Para ler numa sentada!
A inconvencional (e excelente) cinebiografia de Bob Dylan
Não faz muito tempo, a maioria dos filmes de destaque sobre pessoas imersas no universo musical mostrava-se como mais um remake de um mesmo filme ruim. O fato de ser ficção ou pura romantização da vida de algum cantor já nem importava mais. A sinopse era questão de dar nome aos bois e o homenageado levava ao cinema apenas aqueles que, de antemão, aprovavam a trilha sonora do filme.
As cinebiografias de Ray Charles, Johnny Cash e Ian Curtis, no entanto, vêm mostrando que o gênero tem um novo paradigma. Anton Corbijn sequer chama seu filme de cinebiografia. Para ele, Control apenas se baseia na vida de Ian Curtis para falar, dentre outras coisas, da depressão, assunto com o qual o público pode se identificar. Hoje é assim, as cinebiografias são para todos.
Então a passagem discreta de Não Estou Lá pelo circuito é injustificável? Não, não é. O problema (ou trunfo) do longa de Todd Haynes é que ele não está nem lá, nem cá, está adiante, devendo mais aos filmes maluquetes de Spike Jonze que a qualquer cinebiografia já feita. Para começar, diferentemente do que se tem dito, o filme não mostra 6 Bob Dylans, mas 6 personagens inspirados em fases diferentes da vida de Bob Dylan, que, por vezes, vivem interpretações de acontecimentos de sua vida, como Jude Quinn, vivido por Cate Blanchett, metralhando seus fãs numa apresentação, e que convivem com pessoas da vida do cantor e compositor que nunca são chamadas pelos seus verdadeiros nomes. A história é contada também através das músicas, em cenas que mais confundem que esclarecem, subvertendo o papel das músicas nos filmes. No quesito forma, o longa usa linguagens bem diferentes. Ora parece documentário, ora está bem distante disso, mas tudo é ficção baseada em realidade.
Parece um tanto confuso e até é, mas eu não diria que Não Estou Lá é um filme apenas para os fãs, ainda que somente eles entendam as referências. Diria apenas que talvez eles aceitem melhor a idéia de sair do cinema sem conhecer “o personagem principal” (a junção dos 6) inteiramente, pois eles sabem que ninguém realmente conhece Bob Dylan, nem o diretor finge conhecer. Não Estou Lá é, enfim, um filme para fãs de Bob Dylan, é claro, mas também para aqueles que vivem livres da obrigação de desvendar psicologicamente todos os personagens do cinema. Para as pessoas que se enquadram em uma das duas situações, o filme é altamente recomendado.

