A inconvencional (e excelente) cinebiografia de Bob Dylan
Não faz muito tempo, a maioria dos filmes de destaque sobre pessoas imersas no universo musical mostrava-se como mais um remake de um mesmo filme ruim. O fato de ser ficção ou pura romantização da vida de algum cantor já nem importava mais. A sinopse era questão de dar nome aos bois e o homenageado levava ao cinema apenas aqueles que, de antemão, aprovavam a trilha sonora do filme.
As cinebiografias de Ray Charles, Johnny Cash e Ian Curtis, no entanto, vêm mostrando que o gênero tem um novo paradigma. Anton Corbijn sequer chama seu filme de cinebiografia. Para ele, Control apenas se baseia na vida de Ian Curtis para falar, dentre outras coisas, da depressão, assunto com o qual o público pode se identificar. Hoje é assim, as cinebiografias são para todos.
Então a passagem discreta de Não Estou Lá pelo circuito é injustificável? Não, não é. O problema (ou trunfo) do longa de Todd Haynes é que ele não está nem lá, nem cá, está adiante, devendo mais aos filmes maluquetes de Spike Jonze que a qualquer cinebiografia já feita. Para começar, diferentemente do que se tem dito, o filme não mostra 6 Bob Dylans, mas 6 personagens inspirados em fases diferentes da vida de Bob Dylan, que, por vezes, vivem interpretações de acontecimentos de sua vida, como Jude Quinn, vivido por Cate Blanchett, metralhando seus fãs numa apresentação, e que convivem com pessoas da vida do cantor e compositor que nunca são chamadas pelos seus verdadeiros nomes. A história é contada também através das músicas, em cenas que mais confundem que esclarecem, subvertendo o papel das músicas nos filmes. No quesito forma, o longa usa linguagens bem diferentes. Ora parece documentário, ora está bem distante disso, mas tudo é ficção baseada em realidade.
Parece um tanto confuso e até é, mas eu não diria que Não Estou Lá é um filme apenas para os fãs, ainda que somente eles entendam as referências. Diria apenas que talvez eles aceitem melhor a idéia de sair do cinema sem conhecer “o personagem principal” (a junção dos 6) inteiramente, pois eles sabem que ninguém realmente conhece Bob Dylan, nem o diretor finge conhecer. Não Estou Lá é, enfim, um filme para fãs de Bob Dylan, é claro, mas também para aqueles que vivem livres da obrigação de desvendar psicologicamente todos os personagens do cinema. Para as pessoas que se enquadram em uma das duas situações, o filme é altamente recomendado.
Oi Ananda,
É incrível a suavidade e coerência de seu texto. E surpreendente o seu gosto por cinema, siga esse trajeto pois ele lhe pertence.
Parabéns………
Camila
Camila
Maio 7, 2008 em 1:15 pm
se eu falar que vi esse filme duas vezes, dormi na primeira e pesquei na segunda você vai me estapear?
senão nem falo…
Resposta:
Claro que não, Dami! Dormiu, mas foi ver de novo? Eu aprecio muito seu esforço fora de série!
dani
Maio 23, 2008 em 8:14 pm