Archive for Agosto 2008
I want you to make me cry
Novas aquisições (agora já não são tão novas) – Parte I
Laura Marling – Alas I Cannot Swim

Laura Marling soa como ar puro nos dia de hoje. Você gosta dela – se tiver que gostar dela – não por causa de um timing musical incomun, por causa do contraste entre melodia doce e letras ácidas, por causa do seu sotaque ou por escrever músicas como quem escreve uma carta íntima e apoética para uma amiga. Uma das coisas mais incríveis em Laura Marling é, de fato, sua voz, que consegue ter força e carregar emoção ao mesmo tempo que é suave, pecando apenas pela vulnerabilidade mostrada em Ghosts, por exemplo, na qual sua voz mostra algo de infantil.
Outro ponto importante no que diz respeito a Laura Marling é o curioso fato de que se, daqui a alguns anos, algum desavisado pegar Alas I Cannot Swim nas mãos, ele não terá que pesquisar em livros sobre o estranho povo que viveu na nossa época. As histórias contadas por Laura Marling em suas músicas tratam de assuntos atemporais de uma maneira também atemporal, que é a construção de imagens poéticas, o que não tem sido o hábito de seus contemporâneos. Em Alas I Cannot Swim, música que dá nome ao álbum, o fato de não saber nadar é seu obstáculo, pois tudo está do outro lado do rio: “There’s a life across the river that is meant for me/Instead I live my life in constant misery.”
Algo inovador em tempos de Regina Spektor- que canta bem, compõe como poucos, mas tem um timing exótico que eu adoro – Kate Nash e Lily Allen (mesmo eu amando de paixão a primeira, gostando muito da segunda e “curtindo” a terceira). Não é que Laura Marling esteja desvencilhada de tudo o que elas trouxeram. Na verdade, os melhores momentos de Laura Marling são os mais carregados dessa influência, como o refrão de The Captain And The Hourglass e Cross Your Fingers, uma das mais pops do CD.
É empolgante pegar um CD como Alas I Cannot Swim nas mãos. A principal diferença talvez seja que, com essas características atemporais, Laura Marling dá a impressão de que, embora já seja muito talentosa, ainda vai amadurecer e nos impressionar muito, enquanto Kate Nash e Lily Allen deixam transparecer que nos conquistam somente pela juventude. A maturidade pode ser linda, gente! Basta pensar da regravação que Joni Mitchell fez de Both Sides Now!
Clipe de… My Manic and I (sinceramente, amo todas e não
gostei muito do único vídeo que achei de The Captain…)
Pode gritar canoa que não faz efeito!
A moda é para todas, meninas! Ou para todas as meninas de bom gosto e eu não estou falando de roupa. Sam Riley está na campanha Outono/Inverno 2008 da Burberry (vídeo lindíssimo no site). As fotos são de Mario Testino.
E uma história… (outro post antes)
Começou com você achando que ela não perguntaria sobre ele para o pai e eu achando que sim. Ela perguntou como quem estava esperando por essa pergunta o programa todo até aquele momento e aí, meu bem, até eu fui surpreendida com a sinceridade do homem, mas tudo aquilo fez e ainda faz muitos de meus dias. Tanto que é o único Irritando Fernanda Young que gravei.
Se até a mãe do Pete Doherty pode se encher de orgulho para falar da infância dele, dizendo que, aos 4 anos, ele dizia coisas como “Essa música é de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky”! Não, John Casablancas começa dizendo “O Julian… (balança a cabeça negativamente)”. John até diz que ele era inteligente, mas… bem, o inteligente dele vem seguido de um mas e isso diz tudo, não é mesmo? Julian era o filho para quem o Sr. Casablancas olhava pensando no dinheiro que já estava separado para sustentá-lo para o resto da vida. Ao ouvir isso, Fernanda Young brinca que ele era um loser e John Casablancas diz “Era assim mesmo!”.
Um belo dia, para você não foi tão belo, Julian mostrou a John a demo de Last Nite.
Um poema…
Poema em linha reta
(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Nada melhor que reler esse poema que é um de meus eternos favoritos em dias como os que andamos tendo!
Cá está um vídeo com a interpretação de Paulo Autran… Eu queria a Maria Clara!
Era para ser sobre meu coração partido, mas a música que ouvia na época e que ainda ouço é tão boa que roubou meu brilho. Chorarei sozinha…
Braille, da Regina Spektor é uma das músicas mais sublimes e geniais que já ouvi. Uma Zé Nínguém transa com um outro Zé Ninguém e fica grávida de um garoto a quem, para compensar essa ninguendade toda, a mãe decide dar nome de rei: Elvis. A partir daí os dias se passam com brincadeiras com fósforos e sopas Campbell’s frias tomadas nas latinhas… até a morte de Elvis.
Depois da morte do menino, a Zé Ninguém pensa na ironia que é Elvis nunca ter cantado e acompanha os anos na sua pele. Deitada no chão, percorrendo as mãos pelas estrias deixadas pela gravidez, ela tenta decifrar o que está escrito em Braille sobre sua pele.
De todas as coisas que eu podia esperar de uma música chamada Braille, jamais seria isso. Não que fossem estrias numa mãe cega pela dor de perder um filho. Música altamente recomendada para dias de apatia.

