Quem gosta ou faz parte desse universo com pouquíssimos graus de separação que é a blogosfera já deve saber que hoje, dia 29/10/2011, das 16h às 21h, acontece o lançamento do livro Gaveta de Bolso, na Cartel 011.
Dei uma olhada no PDF gratuito do livro e me diverti bastante. As ilustrações em aquarela da Luda Lima estão, como sempre, muito bonitas e carismáticas, enquanto a seleção de textos da Juliana Cunha é pra lá de espirituosa, e seu caráter randômico se encaixa muito bem na proposta do livro que é, como sugere o título pontual, ser um espaço bem charmoso e colorido para o leitor colocar ideias e pensamentos que, do contrário, iriam parar na gaveta.
Dito isso, fiquei pensando. Acho que não tenho coragem de escrever/rabiscar em um livro, por mais que ele seja interativo. Aí lembrei de uma coleção de ensaios que tenho em alta conta: o Ex-Libris, da escritora e jornalista Anne Fadiman, que trata justamente da relação entre um leitor (em especial a própria autora) e seus livros.
Em “Nunca faça isso a um livro”, Anne Fadiman fala sobre a vez em que, ao ver um livro aberto e virado para baixo, uma camareira dinamarquesa deixou sobre a cabeceira do quarto de hotel o recado que dá nome ao ensaio.
“Durante os trinta anos seguintes, vim a me dar conta de que, da mesma forma como existe mais de uma maneira de se amar uma pessoa, existe mais de uma também de se amar um livro. A camareira acreditava no amor cortês. O ser físico de um livro era sacrossanto para ela, sua forma inseparável do conteúdo; seu dever como amante era a adoração platônica, uma tentativa nobre, mas condenada ao fracasso, de conservar para sempre o estado de castidade perfeita no qual havia deixado a livraria. A família Fadiman acreditava no amor carnal. Para nós, as palavras de um livro eram sagradas, mas o papel, o tecido, o papelão, a cola, a linha e a tinta que as continham eram um mero receptáculo, e não significava nenhum sacrilégio tratá-los de qualquer forma, como ditassem o desejo e o pragmatismo. A rispidez no uso não era um sinal de desrespeito, mas de intimidade”, escreve Anne.
É claro que, em minha relação com praticamente tudo, sou muito mais o amor carnal ao platônico. Na verdade, na mesma hora em que ganhei o Ex-Libris eu o derrubei no chão, e embora tenha ficado muito constrangida e posteriormente tenha utilizado esse mesmo trecho para me justificar, não fiquei inconsolável por conta do pequeno amassadinho que ficou em uma das pontas. Até porque, se eu me importasse com isso ficaria louca, já que quase todos os meus livros são de edições vagabundas e de capa mole.
Mas, de volta ao Gaveta de Bolso, meu problema com essa história de escrever em suas páginas, ou em quaisquer outras, é a vergonha. Sempre me sinto ridícula quando leio coisas que escrevi. Daí o hábito que tenho de apagar posts e de escrever cartas, mas nunca enviá-las.

Adorei ler isso!
Não gosto da arte da Luda. E no fim fiquei mais feliz de saber sobre o livro Ex-Libris. Acho que eu e meus livros teremos muito o que conversar assim que eu der uma olhada neste livro batuta.