Menina de 24 anos é flagrada grávida

Setembro 14, 2012 § 5 comentários

Ela atravessou a rua. Tinha os cabelos lisos presos num coque meio desgrenhado que, como costuma acontecer com as abençoadas pela genética, ainda assim estava bastante apresentável, embora um pouco sem graça. Sua roupa esportiva me fez pensar em donas de casa que não cuidam da casa, mas vão à academia e fazem pequenas coisas como ir buscar pão na padaria no meio da tarde, que era exatamente o que ela fazia naquele momento. Além disso, era nova e estava grávida.

– Acho que conheço essa menina – falei para a minha irmã.

– Quem, a grávida? Cê tá brincando!

– É sério, acho que ela estudava no Não Sei Das Quantas.

Como não havia lugar para estacionar, desci do carro sozinha. Assim, entramos eu e meu vestido verde-lima de mangas bufantes na padaria. Na fila de pão, lá estava ela. Aliás, ela, sua roupa esportiva, sua barriga de grávida, seu coque desgrenhado e sua aliança de casamento.

Não é somente por causa de uma latente mentalidade provinciana que me assusto com essas coisas. A razão maior é que, como bem pontuou minha irmã após ser informada sobre o detalhe fornecido pelo dedo anular, “fico surpresa, quase escandalizada quando ouço que alguém que estudou comigo casou ou está grávida, mas aí lembro quantos anos eu tenho e fico surpresa é com a minha vida!”

Entenda, éramos o tipo de garota que, aos 8 anos, pensa que estará casada aos vinte e poucos. Mas falei para ela não se preocupar. Como apontam os estudos e as revistas femininas, a mulher moderna tem casado e tido filhos cada vez mais tarde porque quer se dedicar à carreira. E isso nos fez rir.

Cartoon de Michael Crawford para a New Yorker.

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Problema privado em lugares públicos

Julho 18, 2012 § 2 comentários

O problema de estar desempregado – além da falta de dinheiro, de autoestima e de um sentido na vida –  é o estrago que isso faz nas atividades sociais. Não é somente o fato de você não conhecer pessoas novas, mas principalmente o de você não querer reencontrar as velhas.

O cerne da questão fica em algum lugar entre a minha total falta de jogo de cintura e a mais absoluta dificuldade que algumas pessoas têm em começar uma conversa com uma pergunta que não seja “como você está e o que anda fazendo”. Tudo seria muito mais fácil se, além de coragem, eu encontrasse alguma forma gentil de dizer: “Para quem faz questão de saber, continuo na merda até segunda ordem. Me chamem para ir a algum lugar barato!”

Olha lá o Mickey Mouse

Julho 17, 2012 § 3 comentários

Eu voltava do trabalho para casa na companhia de amigos, como fazem tantas pessoas que tentam deixar a viagem de transporte público menos tortuosa. Mas, naquele dia, ela quis descer antes porque tinha que passar numa loja de brinquedos para comprar um presente para seus dois irmãos mais novos.

“Quer ir junto?”, perguntou. E eu topei. As Barbies de hoje parecem transformistas, mas ainda gosto de ver as novas coleções.

Andamos pela loja até que ela encontrasse o que procurava. Não lembro o que era, mas sei que era algo silencioso, uma súplica da mãe dela. Enquanto isso, separei um Yoda em miniatura para dar para a minha irmã. Uma dessas coisas bestas que muitos chamam de porcaria na hora que alguém compra, mas que são roubadas com uma frequência assustadora, como de fato, apenas alguns meses depois, o foi.

Antes de passarmos no caixa, porém, paramos no setor de fantasias, onde apontei para um traje cor-de-rosa que eu acreditava pertencer à Penélope Charmosa. “Que gafe!”, ela disse, “Essa é a Stephanie do Lazy Town”. E aquilo foi como um fio de cabelo branco. Ao citar uma personagem de 1968, percebi que tinha virado a tia que chama todo rato de desenho animado de Mickey Mouse, não importando a diferença entre um e outro.

Quando era pequena e via adultos se enganarem dessa forma, não entendia. Hoje acredito que isso tenha a ver com aqueles estudos que dizem que o termo “melhor idade” não é apenas um eufemismo, e que as pessoas são realmente mais felizes na velhice. É algo conflitante pois é chato não estar por dentro das coisas e enferrujar. Por outro lado, com o passar do tempo você percebe o quão significante é saber quem é a Lana Del Rey ou a Stephanie, isto é, muito pouco. Então, o caminho é selecionar representantes e utilizar seus nomes como termos genéricos para qualquer coisa nova que aparecer por aí.

Adivinhações e conclusões

Julho 6, 2012 § 2 comentários

Em janeiro deste ano, o New York Times publicou uma matéria sobre o fim de amizades chamada “It’s Not Me, It’s You”. Apesar do título manjado, o texto é interessante, com dados sobre os picos de amizades na vida de uma pessoa normal, além de uma porção de histórias de pessoas que terminaram uma amizade por um motivo ou outro, dessa ou daquela maneira, com direito a insights de psicólogos sobre cada técnica, coisa que, para o leitor experiente, já serve de alerta para o tipo de material que ele tem em mãos: aquele cuja linha fina promete ensinar o que fazer em determinada situação só para em seu desenlace lançar mão de uma variante da máxima “cada um é cada um” e, por que não, “cada caso é um caso”.

Mas a verdade é que, depois de algumas entrevistas de emprego sem resposta, me peguei pensando no texto. “Eu queria ter lidado com isso de forma diferente”, disse uma entrevistada que a matéria afirma ter usado a técnica do cafajeste, “Acho que você deve isso para a pessoa, em vez de deixá-la tentando adivinhar”.

Pois eu pensei e chorei muito, e, após análise junguiana, concluí que o problema todo está na falta de confiança e de completude das empresas, que não se garantem como o Prince e não cantam pra mim “You don’t need experience to turn me out. You just leave it all to me, I’m gonna show you what it’s all about”.

A relação entre pais e seus descendentes

Julho 1, 2012 § 9 comentários

Quando vi  “Os Descendentes” no cinema, quis muito ler o livro. Precisava de alguma coisa pra curtir na “empolgação do momento”, já que os livros que eu adquirira há pouco, de tanto que ficaram nas listas de desejos e carrinhos de compras por aí, já haviam me enchido os picuás. Em tempo, um dos melhores conselhos que recebi este ano foi para esquecer os planos de leitura que colocam os exemplares velhos na frente dos novos. Depois que um livro vai para a estante acaba a novidade, e ele cai na categoria não menos lisonjeira, embora muito mais incerta de “leio quando estiver no estado de espírito”.

Ganhei o livro da escritora Kaui Hart Hemmings e gostei. A edição brasileira, da Alfaguara, parece ter sido feita às pressas para conseguir acompanhar o lançamento do filme, o Oscar, etc. Tem alguns erros de concordância e adaptações bizarras como a da cena na praia, na qual a Alex, uma garota de 17 anos, usa o termo pitéu, e ainda explica o significado para o pai, Matt King. “Uma mulher com boa aparência”, ela diz, “Gostosa”. Enfim, desde que larguei Letras isso deixou de ser problema meu.

A história, porém, é bonita, em especial pela forma como é contada. Como no filme, em primeira pessoa, pelo cara que, depois que sua mulher entra em coma, tem que assumir o papel de pai. É curioso porque, de costume, a figura paterna pode ser superprotetora, severa, amalucada, ausente… e embora muitas vezes precise de um empurrãozinho de alienígenas, dinossauros, forças sobrenaturais, morte, doença e momentos difíceis de maneira geral para conhecer melhor os filhos e criar laços com eles, quase nunca parte de extremos que crianças e adolescentes conhecem bem. Verbalizar a raiva pelos familiares ou o desejo de que eles não existissem é privilégio dos herdeiros, afinal, ninguém pede para nascer.

Não é que Matt King desgoste das filhas. Ele apenas não as conhece direito, mas, em sua cabeça, confirma ao leitor aquela suspeita insistente que mais cedo ou mais tarde acomete os filhos que possuem um relacionamento distante com os pais: a de que, talvez, não sejam sempre vistos por seus progenitores através dos filtros do amor incondicional, o que é desconcertante. Por outro lado, é sempre mais legal descobrir que se gosta realmente de alguém, apesar do parentesco.

Lição de humildade

Junho 21, 2012 § 4 comentários

Ando extremamente irritada com aquele tipo de pessoa que se encaixa num molde que as forças responsáveis pelo equilíbrio do universo cometeram a gafe de não dissipar. Pessoas confiantes me deixam desassossegada não por despertarem minha segurança. É só que, após aprendizado intensivo com meus pais, descobri que não faço mais que a obrigação, não mereço o mérito do que sou ou tenho e que qualquer tentativa de marketing pessoal é de uma condenável soberba, e, portanto, o mínimo que posso fazer por minha autoestima é ser justa e aplicar a regra a outrem.

A vida de John Baldessari

Maio 17, 2012 § 8 comentários

Depois de um post inspirado que quase ninguém leu, volto à rotina dos textos preguiçosos para compartilhar este pequeno documentário dos diretores Henry Joost e Ariel Schulman sobre John Baldessari, artista influente sobre quem coincidentemente quase ninguém ouviu falar.

Narrado pelo Tom Waits, o curta me lembrou muito a introdução de “Os Excêntricos Tenenbaums”, do Wes Anderson, e achei uma reflexão bem humorada sobre a arte.