Um poema…

Agosto 6, 2008 § 3 comentários

Poema em linha reta

(Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Nada melhor que reler esse poema que é um de meus eternos favoritos em dias como os que andamos tendo!

Cá está um vídeo com a interpretação de Paulo Autran… Eu queria a Maria Clara!

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§ 3 Responses to Um poema…

  • Eu que sou lira diz:

    Não conheço essa Maria Clara…

    Resposta: Era a professora de literatura lira! Ela sentia o poema de verdade ou como eu… Lia o primeiro verso e, sem acrescentar palavra, você entendia que lá estava um PUTA-QUE-O-PARIU dolorido, angustiado e rancoroso de quem nunca conheceu quem tivesse levado porrada, de quem só conhece quem tem sido campeão em tudo…

  • Eu que sou lira diz:

    Eu, escolhe eu!!! ( com mãozinhas para o ar) Eu também sou vil, acho que sou um ser humano… Não sou princesa neste mundo de semideuses… Escolhe eu que eu tenho um monte de casos para compartilhar…

    Resposta: São os incríveis casos? Eu tenho alguns para contar… Goodbye, Norma Jean though I never…

  • dani diz:

    isso me lembra de…
    “naaao é da borboleta!”
    rara

    ótimos anos maria clara.

    AMO essa poesia!

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