Show da vida

Maio 7, 2012 § 2 comentários

Acho que ninguém responsável por selecionar os candidatos às vagas de uma empresa deveria ficar muito tempo acomodado em um emprego estável. Do modo que eu sonho, em um dia de verão, desses em que faz sol de dia e chove à tarde, eles receberiam uma ligação lá pela hora do almoço, e então seguiriam para o setor de recursos humanos, onde uma moça de aparência tímida, de óculos e cabelo sem corte, lhes diria sem enrubescer que eles estão sendo dispensados por não estarem de acordo com o perfil 2012 da empresa.

A partir daí, teria início uma encenação coletiva ao estilo “O Show de Truman”, e seus maridos ou esposas perderiam o emprego; seus filhos, bons alunos de universidades caras, não conseguiriam o primeiro estágio; um ou outro ente querido faleceria e muitas pessoas prosperariam, só para tirar da cabeça desses recrutadores a ideia meio triste, mas muito consoladora de que se trata de um mau momento na economia que dispensa explicação aos conhecidos, que perguntariam com demasiada frequência o que eles andam fazendo da vida.

Enquanto isso, eles não conseguiriam empregos em sua área de atuação; as contas chegariam; o inverno rigoroso exigiria roupas novas e mais quentes; aparelhos domésticos quebrariam; o preço das coisas subiria; as esposas ou maridos entrariam em depressão e os jornais e as revistas trariam matérias sobre os gastos exorbitantes dos brasileiros no exterior.

Passado um ano, uma vaga dos sonhos apareceria e, em uma das raras vezes em todo esse tempo, eles seriam chamados para uma entrevista. Nela, uma pessoa super confiante lhes olharia sem sorrir, percorreria seus currículos como quem não encontra o que procura e lhes perguntaria coisas como o motivo da saída da grande empresa em que trabalhavam, se acham que dão conta do recado depois de tanto tempo fora do mercado, o porquê desse tempo e, finalmente, o que eles realmente querem para a carreira já que passaram um bom período fazendo salgadinhos de festa sob encomenda.

Se tudo desse certo e ninguém lançasse mão de ironias, grosserias, choradeiras e palavras honestas e merecidas em geral, após uns dois meses, quando eles já tivessem como certa mais essa rejeição, receberiam uma ligação da moça de óculos que lhes diria que tudo não passara de uma pegadinha, e que eles deveriam encarar aquilo como um período sabático, mas que a empresa os espera na segunda-feira com um grupo de candidatos à vaga de estágio.

E só para afastar a ideia desta vez meio divertida, mas muito consoladora de que não fosse o ambiente controlado nada disso teria acontecido, domingo, no Fantástico, a Renata Ceribelli falaria de uma nova série que consistiria nesse um ano na vida dessas pessoas. Logo em seguida, antes de uma matéria repleta de entrevistas com pessoas cabisbaixas, diria: “Essa é a história de milhares de brasileiros”. E terminaria assim.

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§ 2 Responses to Show da vida

  • Glaucia Almeida diz:

    Eu também sonho com isso. Consigo até entender a falta de sensibilidade das pessoas do RH, elas queriam ter feito algo mais importante, mas não tiveram a capacidade. Agora agem como porteiros de uma balada da moda na qual decidem quem entra e quem sai e esse poder sobe à cabeça. As empresas deveriam contratar pessoas mais qualificadas para serem seus porteiros, como psicólogos que talvez conseguissem enxergar as pessoas além de sua aparência. As pessoas supervalorizam a palavra comunicação e só a entendem como uma descrição de pessoas descoladas e que falam muito (muitas vezes com pouco conteúdo) e esquecem que há diversas formas de se comunicar, através das palavras escritas, de sinais, da linguagem corporal, etc. Timidez não é sinônimo de incapacidade de comunicação. O mundo não é feito só de meia-dúzia de âncoras de jornais, é só olhar no fundo e ver que exixte uma equipe sem rosto e sem voz, mas que montam os programas e falam através das caras comunicativas da mídia.

  • Marcel diz:

    Esse texto é muito verdade.
    O que sinto as vezes é que as pessoas tentam ver em pequenos gestos coisas que não dizem o que é a pessoa profissionalmente falando, às vezes vejo esses testes para entrar em uma empresa e penso que às vezes as pessoas pensam que estão escolhendo pessoas para entrar em uma graduação ao invés de escolher um bom profissional, sem contar que as vezes quando tem uma entrevista com o superior da sua área de trabalho eles tentam enxergar coisas que não são mas queriam muito ser e projetam isso na pessoa que só está lá para tentar entrar e mostrar que consegue fazer, mesmo que no começo, com toda aquela pressão do momento, não vai mostrar exatamente como que é. Sei lá, isso levantou tanta coisa que fica até complicado deixar aqui nos comentários, ele passa por tantos aspectos de como é esse momento degradante que temos que passar.

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